LIMBO
Essas coisas, ah, só comigo. Explico: existe uma espécie de limbo, de onde são expelidas as entidades que, convertidas em personagens de obras literárias, irão estampar-se nos contornos palpáveis do papel e da tinta. Após serem assimiladas pelos leitores e dissecadas (com requintes de crueldade ou complacência excedente) pelos críticos, elas desencarnam e retornam ao limbo. Olhe que algumas têm até a sorte de reencarnar, no caso de seqüências das obras literárias. E o que falar daquela esfera especial, cheia de entidades à clef, que, meio ficcionais, meio de carne e osso, esvoaçam pela eternidade literária sem certeza de sua real composição? Agora, claro, existem as da minha espécie, que nunca deixam o limbo, presas a uma obra só: obra que jamais será concluída, já que o autor burila indefinidamente o maldito texto, lapida ad nauseam um romance, conto ou novela que nunca, nunca verá a luz do dia. Um filho da puta que sequer conheço e que se acha escritor me confinou a esta condição, a esta sina. Onde eu me meti, aonde eu vim parar?

